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A vida é um milagre

Terça-feira, 11.04.17

A Vida é um Milagre

 Como praticar a Arte de Viver Conscientemente!

No Vietname, quando eu era um monge ainda jovem, cada templo de aldeia tinha um grande sino, como aqueles das igrejas cristãs da Europa e da América. Sempre que o sino tocava, todos os aldeões interrompiam o que estavam fazendo e faziam uma pausa de poucos instantes para expirar e inspirar conscientemente. Em Plum Village, comunidade onde vivo na França, fazemos o mesmo. Cada vez que ouvimos o sino, recolhemo-nos em nós mesmos e nos comprazemos com a nossa respiração. Quando inspiramos, dizemos, em silêncio: “Ouça, ouça”; e quando expiramos, dizemos: “Este som maravilhoso me transporta ao meu verdadeiro lar”.

Nosso verdadeiro lar está no momento presente. Viver o momento presente é um milagre. O milagre não está em caminhar sobre as águas. O milagre está em caminhar sobre a terra verdejante no momento presente, apreciar a paz e a beleza que estão agora ao nosso alcance. A paz está ao nosso redor – no mundo e na natureza – e dentro de nós – no nosso corpo, no nosso espírito. Quando aprendermos a entrar em contacto com essa paz, estaremos curados e transformados. Não é uma questão de fé; é uma questão de prática. Precisamos apenas encontrar os meios de trazer nosso corpo e nossa mente de volta ao momento presente, a fim de que possamos entrar em contacto com o que é revigorante, salutar e maravilhoso.

O ano passado, em Nova York, tomei um táxi e percebi que o motorista não era feliz. Ele não estava concentrado no momento presente. Não havia paz ou alegria nele, nem capacidade para estar atendo enquanto realizava o ato de guiar, e demonstrava isso pela forma como guiava. Muitos de nós fazemos o mesmo. Corremos de um lado para o outro, mas não estamos em harmonia com o que estamos fazendo: não estamos em paz. Nosso corpo está aqui; nossa mente, porém, está em algum outro lugar - no passado ou no futuro, dominada pela raiva, pela frustração, por esperanças ou sonhos. Não estamos realmente vivos; parecemos fantasmas. Se um lindo filho nosso chegasse até nós e nos sorrisse, nós não o perceberíamos – realmente – e ele não nos perceberia. Que pena!

Em sua obra The Stranger, Alberto Camus fala de um homem que vai ser executado dentro de poucos dias. Sentado, sozinho, em sua cela, ele notou através da luz do dia uma pequena nesga de céu azul e sentiu-se, de súbito, profundamente em contacto com a vida, profundamente mergulhado no momento presente. E fez o voto de viver o restante de sua vida em plena consciência, fruindo plenamente cada momento, e assim se comportou por vários dias. Então, três horas antes do momento de sua execução, um padre foi à sua cela, para ouvi-lo em confissão e administrar-lhe os últimos sacramentos. O homem, porém, desejava apenas ficar sozinho. Tentou muitas vezes fazer com que o padre se retirasse e, quando finalmente conseguiu, disse a si mesmo que aquele padre vivia como um morto. “Il vit comme um mort”. Compreendeu que o homem que estava tentando salvá-lo estava menos vivo do que ele, que estava prestes a ser executado.

Muitos de nós, embora vivos, não estamos realmente vivos, por não termos a capacidade de entrar em contacto com a vida no momento presente. Somos, como diz Camus, pessoas mortas. Eu gostaria de compartilhar com vocês alguns exercícios simples que podemos praticar e que nos ajudarão a reunir nosso corpo e nossa mente e a nos fazer retornar ao contacto com a vida no momento presente. O primeiro chama-se respiração consciente, e seres humanos como nós a têm praticado por mais de três mil anos. Quando inspiramos, sabemos que estamos inspirando, e quando expiramos, sabemos que estamos expirando. À medida que o fazemos, notamos muitos elementos de felicidade dentro e fora de nós. Podemos realmente apreciar o contacto com a nossa respiração e com o fato de estarmos vivos.

Só se encontra a vida no momento presente. Acho que deveríamos instituir um feriado para comemorar esse fato. Temos feriados para tantas ocasiões importantes – Natal, Ano-Novo, Dia das Mães, Dia dos Pais, até Dia da Terra – por que não comemoramos um dia em que podemos viver, felizes, no momento presente, durante o dia inteiro? Eu gostaria de proclamar hoje “O Dia de Hoje”, um dia dedicado a entrar em contacto com a Terra, a entrar em contacto com o céu, com as árvores e com a paz que está disponível no momento presente.

Há dez anos, plantei três belos cedros do Himalaia do lado de fora de minha cabana, e agora, sempre que passo por um deles, curvo-me, roço-lhe a casca com meu rosto e o abraço. Enquanto inspiro e expiro conscientemente, ergo o olhar para seus ramos e para suas lindas folhas. Recebo muita paz e muita força ao abraçar as árvores. Tocar uma árvore proporciona grande prazer tanto a você como à árvore. As árvores são belas, revigorantes e sólidas. Quando você quer abraçar uma árvore, ela nunca diz não. Você pode confiar nas árvores. Ensinei a meus alunos a prática de abraçar as árvores.

Em Plum Village, temos uma linda tília que dá sombra e alegria a centenas de pessoas todos os verões. Há alguns anos, durante uma forte tempestade, muitos de seus galhos se partiram e a árvore quase morreu. Quando vi a tília depois da tempestade, tive vontade de chorar. Senti necessidade de tocá-la e o fiz, mas isso não me deu muito prazer. Vi que a árvore estava sofrendo, e resolvi descobrir um meio de ajudá-la. Felizmente, nosso amigo Scott Mayer é um dendrólogo (médico de árvores), e cuidou tão bem da tília que agora ela está mais forte ainda e mais bonita que antes. Plum Village não seria a mesma sem essa árvore. Sempre que posso toco a sua casca e a sinto intensamente.

Da mesma forma que tocamos as árvores, podemos tocar a nós mesmos e aos outros, com compaixão. Às vezes, quando tentamos fixar um prego num pedaço de madeira, em vez de bater no prego, batemos no nosso dedo. Pomos imediatamente o martelo de lado e cuidamos do dedo ferido. Fazemos todo o possível para ajudá-lo, com primeiros socorros e também com desvelo e compaixão. Talvez precisemos da ajuda de um médico ou de uma enfermeira, mas também precisamos de compaixão e de alegria para que a ferida sare logo. Sempre que sentimos alguma dor, é maravilhoso tocá-la com compaixão. Mesmo que a dor seja interna – no fígado, no coração ou no pulmão – podemos tocá-la com a consciência.

Nossa mão direita tocou a nossa mão esquerda muitas vezes, mas pode não tê-lo feito com compaixão. Vamos praticar juntos. Inspire e expire três vezes, toque na sua mão esquerda com a mão direita e, ao mesmo tempo, com a sua compaixão. Você percebe que, enquanto a mão esquerda está recebendo conforto e amor, a mão direita também está recebendo conforto e amor? Esta prática é válida para ambas as partes, não apenas para uma. Quando vemos uma pessoa sofrer, se a tocamos com compaixão, ela receberá o nosso conforto e o nosso amor, e nós também receberemos conforto e amor. Podemos fazer o mesmo quando nós mesmos estamos sofrendo. Agindo dessa forma, todos se beneficiam.

A melhor forma de entrar em contacto com algo é fazê-lo com consciência. Você sabe, é possível entrar em contacto inconscientemente. Quando você lava o rosto de manhã, você pode tocar seus olhos sem nem sequer estar consciente de que os está tocando. Você pode estar pensando em outras coisas... Mas, se lavar o rosto com atenção, consciente de que você tem olhos que vêem, de que a água provém de fontes distantes para tornar possível a você lavar o rosto, esse ato tornar-se-á muito mais significativo. Quando você tocar seus olhos, poderá dizer: “Inspirando, estou consciente dos meus olhos. Expirando, sorrio para os meus olhos”.

Nossos olhos são elementos revigorantes, curativos e serenos, à nossa disposição. Se prestamos atenção ao que está errado, por que não prestamos atenção ao que é maravilhoso e reconfortante? Raramente dispomos de tempo para apreciar nossos olhos. Quando tocamos os olhos com as mãos, nossa consciência percebe que são jóias preciosas, fundamentais para a nossa felicidade. As pessoas que perderam a visão sentem que, se pudessem ver como nós vemos, estariam no paraíso. Nós só precisamos abrir os olhos para ver todos os tipos de formas e de cores – o céu azul, as belas colinas, as árvores, as nuvens, os rios, as crianças, as borboletas. Apenas sentando aqui e contemplando essas formas e cores, podemos ser extremamente felizes. Ver é um milagre, uma condição da nossa felicidade e, no entanto, durante grande parte do tempo, aceitamos o fato simplesmente. Não agimos como se estivéssemos no paraíso. Quando praticamos a inspiração, tornando-nos conscientes de nossos olhos, e quando praticamos a expiração, sorrindo para nossos olhos, chegamos à verdadeira paz e à verdadeira alegria.

Podemos fazer o mesmo com o coração. “Inspirando, estou consciente do meu coração. Expirando sorrio para o meu coração”. Se praticarmos isso algumas vezes, compreenderemos que o nosso coração tem trabalhando com afinco, dia e noite, durante muitos anos, para nos manter vivos. O coração bombeia sem parar milhares de galões de sangue todo dia. Mesmo quando dormimos, o coração prossegue em sua obra de nos proporcionar paz e bem-estar. O coração é um factor de paz e de alegria, mas nós não o notamos nem o apreciamos. Nós apenas notamos de perto as coisas que nos fazem sofrer e, por esse motivo, fazemos o coração passar por momentos difíceis, com nossas preocupações e fortes emoções, e com o que comemos e bebemos. Agindo assim, promovemos nossa paz e nossa alegria. Quando inspiramos e nos tornamos conscientes do nosso coração, e quando expiramos e sorrimos para o nosso coração, ficamos iluminados. Vemos o coração com toda a clareza. Quando sorrimos para o nosso coração, nós o estamos massajando com compaixão. Quando sabemos o que comer e o que não comer, o que beber e o que não beber, que preocupações e desesperos evitar, conservamos o nosso coração fora de perigo.

O mesmo método pode ser aplicado a outros órgãos do nosso corpo; por exemplo, ao fígado. “Inspirando, sei que meu fígado tem trabalhado com afinco para me resguardar. Expirando, faço o voto de não maltratar o meu fígado, ingerindo muito álcool”. Essa é uma meditação de amor. Nossos olhos somos nós. Nosso coração somos nós. Também somos o nosso fígado. Se formos incapazes de amar o nosso próprio coração e o nosso próprio fígado, como poderemos amar uma outra pessoa? Exercer o amor é, antes de tudo, pôr em prática um amor dirigido a nós mesmos – cuidando do nosso corpo, do nosso coração e do nosso fígado. Estamos cuidando de nós mesmos com amor e compaixão.

Quando sentimos dor de dente, sabemos que não sentir dor de dente é uma coisa maravilhosa. “Inspirando, estou consciente de não sentir dor de dente; expirando, sorrio por não sentir dor de dente”. Podemos atingir a ausência de dor com a nossa consciência, e até mesmo com as mãos. Quando temos asma e mal podemos respirar, compreendemos que respirar livremente é uma coisa maravilhosa. Mesmo quando temos apenas o nariz entupido, sabemos que respirar livremente é uma coisa maravilhosa.

Todos os dias nos pomos em contacto com o que está errado e, consequentemente, estamos nos tornando cada vez menos saudáveis. É por isso que temos de aprender a prática de chegar ao que não está errado – dentro e fora de nós. Quando entramos em contacto com nossos olhos, com nosso coração, com nosso fígado, com nossa respiração e com o fato de não sentir dor de dente, e realmente nos alegramos com isso, compreendemos que as condições para chegar à paz e à felicidade já estão presentes. Quando caminhamos atentamente e tocamos a Terra com nossos pés, quando tomamos chá com amigos e apreciamos esse chá e a nossa amizade, ficamos curados e podemos transmitir essa cura à sociedade. Quanto mais tenhamos sofrido no passado, mais fortes nos tornaremos como agentes de cura. Podemos aprender a transformar o nosso sofrimento numa espécie de discernimento que virá a ajudar nossos amigos e a sociedade.

Não temos de morrer e entrar no Reino dos Céus. Na verdade, precisamos estar completamente vivos. Quando inspiramos e expiramos e abraçamos uma bela árvore, estamos no Céu. Quando respiramos conscientemente, conscientes de nossos olhos, do nosso coração, do nosso fígado, de não sentir dor de dente, somos imediatamente transportados para o Paraíso. A paz está ao nosso alcance. Temos apenas que entrar em contacto com ela. Quando estamos realmente vivos, podemos ver que a árvore faz parte do Céu, assim como nós. Todo universo está conspirando para nos revelar isso, mas estamos tão desligados que investimos nossos recursos cortando árvores. Se queremos entrar no Céu aqui na Terra, precisamos apenas dar um único passo consciente e fazer uma única respiração consciente. Quando alcançamos a paz, tudo se torna real. Passamos a ser nós mesmos, plenamente vivos no momento presente, e a árvore, nosso filho e tudo o mais se revela a nós no seu mais absoluto esplendor.

“O milagre é caminhar sobre a Terra”. Essa declaração foi feita pelo mestre zen Lin Chi . O milagre não é caminhar pelo ar, ou sobre ás águas, mas andar sobre a Terra. A Terra é tão linda... Nós também somos lindos. Podemos permitir a nós mesmos andar conscientemente, tocando a Terra, nossa mãe maravilhosa, a cada passo. Não precisamos desejar a nossos amigos “que a paz esteja convosco”. A paz já está entre eles. Só precisamos ajudá-los a cultivar o hábito de entrar, a todo momento, em contacto com a paz.

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A água é de todos