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Tratado de Paz

Quarta-feira, 15.03.17

Tratado de Paz

 Como praticar a Arte de Viver Conscientemente!


Para que possamos viver muito tempo juntos e felizes, para que possamos aperfeiçoar e aprofundar continuamente o nosso Amor e a nossa Compreensão, nós, abaixo assinados, prometemos observar e praticar o seguinte:

Eu, que estou zangado, concordo em:

Abster-me de dizer ou de fazer algo que possa causar maiores danos ou contribuir para aumentar a raiva.
Não reprimir a minha raiva.
Praticar a respiração e procurar refúgio na ilha que existe dentro de mim.
Com toda a calma, dentro de vinte e quatro horas, falar a respeito da minha raiva e do meu sofrimento com quem os provocou, verbalmente ou entregando um Bilhete de Paz.
Solicitar um encontro mais no final da semana (por exemplo, sexta-feira à noite) a fim de discutir a questão mais profundamente, verbalmente ou por meio de um Bilhete de Paz.
Não diga: “Não estou zangado. Está tudo em ordem... Não estou sofrendo. Não há motivo para eu estar zangado, pelo menos não há motivo suficiente para me deixar zangado”.
Praticar a respiração e analisar profundamente minha vida diária– quando estiver sentado, deitado, de pé e andando– a fim de reconhecer:As maneiras pelas quais fui, às vezes, pouco habilidoso.
Como, devido à minha energia habitual, feri a outra pessoa.
Como a semente da ira, muito forte em mim, é a causa primordial da minha raiva.
Como o sofrimento da outra pessoa, que rega a semente da minha ira, representa a causa secundária.
Como a outra pessoa está apenas procurando aliviar o seu próprio sofrimento.
Que, enquanto a outra pessoa estiver sofrendo, não posso realmente ser feliz.
Desculpar-me imediatamente, sem esperar até sexta-feira à noite, assim que me der conta da minha falta de tato e de compreensão.
Adiar o encontro de sexta-feira se eu não me sentir suficientemente calmo para me encontrar com a outra pessoa.
Eu, que deixei o outro zangado, concordo em:

Respeitar os sentimentos da outra pessoa, não ridicularizá-la e lhe conceder o tempo que for necessário para se acalmar.
Não forçar uma discussão imediata.
Aceitar o pedido de um encontro, verbalmente ou por escrito, e assegurar à outra pessoa que estarei lá.
Praticar a respiração, procurando refúgio na ilha que existe dentro de mim, para ver que:Possuo sementes de maldade e de ira, assim como a energia habitual de tornar a outra pessoa infeliz
Pensei erroneamente que, fazendo o outro sofrer, aliviaria minha própria dor
Fazendo o outro sofrer, provoco o meu sofrimento
Desculpar-me assim que me der conta de minha falta de tacto e de compreensão, sem fazer qualquer tentativa para justificar-me e sem esperar pelo encontro de sexta-feira.
Nós, tendo o senhor Buda por testemunha e a presença vigilante do Sangha, juramos respeitar esses artigos, cumprindo-os de todo o Coração. Invocamos as Três Gemas para nossa Protecção e para nos conceder Confiança e Lucidez.

Firmado_______________.
No_______ Dia de_______
no Ano de____.em_______.
Quando nos enraivecemos, não nos parecemos em nada com uma bela flor. Parecemos mais uma bomba prestes a explodir. Centenas de músculos de nossa face tornam-se tensos. Pelo facto de suscitarmos tanto sofrimento quando nos zangamos ou nos aborrecemos, nós em Plum, recentemente esboçamos um Tratado de Paz, que os indivíduos e os casais podem assinar perante o Sangha para reforçar a probabilidade de lidarmos bem com nossa raiva. Não se trata apenas de um pedaço de papel; é uma prática que nos ajudará a viver felizes e mais tempo juntos. O tratado é composto de duas partes – uma para a pessoa que está enraivecida e outra para a pessoa que provocou a raiva. Quando ficamos zangados ou quando alguém se zanga connosco, se obedecermos aos termos do Tratado de Paz, saberemos exactamente o que fazer ou não.

De acordo com o primeiro artigo, concordamos que, quando zangados, nos absteremos de fazer ou de dizer qualquer coisa que possa suscitar mais dano ou contribuir para aumentar a raiva. Quando sabemos que estamos enraivecidos, impomos a nós mesmos uma espécie de moratória nas palavras e nas acções.

No segundo artigo, concordamos em não reprimir nossa raiva. No momento apropriado, diremos algo, mas não imediatamente. O período mínimo de espera corresponde a três respirações conscientes. Se não esperamos pelo menos esse tempo, é melhor não exprimir nossos sentimentos com respeito à nossa raiva.

No terceiro artigo, concordamos em praticar a respiração com nossa raiva e a procurar refúgio na ilha que existe dentro de nós. Sabemos que a raiva está presente. Não a reprimimos nem a negamos. Nós cuidamos dela por meio da respiração consciente, envolvendo-a nos braços amorosas da plena consciência. Sentamos em silêncio ou caminhamos, talvez em meio à natureza. Se precisarmos de meia hora, despenderemos meia-hora. Se precisarmos de três horas, praticaremos a respiração durante três horas.

O Buda disse a seus discípulos:

Meus amigos, não contem com nada fora de vocês mesmos. Sejam uma ilha para si mesmos e busquem refúgio na ilha de seu ser.
Em momentos difíceis, quando não sabemos o que fazer, este é um maravilhoso exercício a ser praticado. Se eu estivesse em um avião prestes a cair seria isso o que eu faria. Se executarmos bem a nossa prática, nossa ilha terá árvores, pássaros, um lindo riacho e uma terra muito sólida. A essência de um Buda está na consciência. A respiração consciente equivale ao dharma vivo, melhor que qualquer livro. O Sangha está presente em cinco elementos que compreendem o nosso eu:

Na forma
No sentimento
Na percepção
Nas formações mentais
Na consciência
Quando estes elementos estão em harmonia, gozamos de paz e de alegria. Quando praticamos a respiração consciente e criamos em nós mesmos a consciência plena, o Buda está presente. Se voltarmos e descobrirmos o Buda dento de nós, estaremos salvos.

De acordo com o quarto artigo do tratado, temos até vinte e quatro horas para nos acalmar. Então devemos dizer a outra pessoa que estamos zangados. Não temos o direito de guardar a nossa raiva além deste tempo. Se o fizermos, ela se torna peçonhenta e pode nos destruir e destruir a pessoa que amamos. Se estivermos habituados à prática, estaremos prontos a falar com ela em cinco ou dez minutos, mas o período máximo é de vinte e quatro horas. Podemos dizer: Querido amigo, o que você me disse me deixou furioso. Sofri muito e quero que você saiba disso.

De acordo com o quinto artigo, terminamos com esta frase: Espero que na sexta-feira à noite tenhamos ambos a chance de examinar cuidadosamente essa questão. Então, marcamos um encontro. Sexta-feira à noite é um bom momento para desactivar todas as bombas, grandes ou pequenas, de forma de teremos todo o fim de semana para aproveitar. Se sentirmos que ainda não estamos seguros para falar, que não nos sentimos capazes de fazê-lo de uma maneira calma, e o prazo final de vinte e quatro horas se aproxima, podemos usar este Bilhete de Paz:

Data:
Hora:
Querido: ____________
Esta manhã (tarde), você disse (fez) algo que me deixou furioso. Sofri muito. Quero que você saiba disso. Você disse (fez): ...
Por favor, vamos ambos ver o que você disse (fez) e analisar o assunto juntos, com franqueza e tranquilidade, esta sexta-feira à noite.
Subscrevo-me
Não muito feliz no momento,
___________________
Se optarmos por este bilhete, temos que ter certeza de que a outra pessoa o receberá antes do prazo final. Não podemos nos contentar com: “Eu pus o bilhete sobre a sua mesa e você nem abriu, então a culpa é sua”. Isso visa nosso próprio bem, pois, a partir do momento em que sabemos que a outra pessoa recebeu o bilhete, já nos sentimos mais aliviados. É melhor dizer-lhe directamente, em tom calmo; mas se achamos que não teremos a capacidade de fazê-lo calmamente, podemos preencher um bilhete de paz e entregar-lhe pessoalmente. Mas temos de ter certeza de que a pessoa o receberá antes do prazo final.

O sexto artigo prescreve que não devemos fingir que não estamos zangados. Podemos ser muito orgulhosos e não querer admitir nosso sofrimento. Porém, não devemos dizer: Não estou zangado. Não há motivo para estar zangado. Devemos evitar esconder a verdade. Se estamos zangados, isso é um fato. É uma parte importante do Tratado de Paz. O orgulho não deve ser um obstáculo capaz de destruir nosso relacionamento. Estamos ligados um ao outro, apoiamos um ao outro, somos como irmãos um para o outro. Por que sermos tão orgulhosos? Minha dor deve ser sua dor. Meu sofrimento, o seu sofrimento.

De acordo com o sétimo artigo, enquanto estivermos praticando sentados, caminhando, respirando, olhando profundamente e vivendo nossa vida diária conscientemente, devemos centralizar nossa atenção nos seguintes pontos:

Reconhecer os pontos em que não fomos conscientes ou habilidosos no passado
Ver como ferimos a outra pessoa no passado e reconhecer para nós mesmos: Tenho a energia habitual de me enraivecer e de ferir os outros com muita facilidade
Reconhecer que a principal causa de nossa raiva é a forte semente de raiva depositada em nossa consciência armazenadora que tem o hábito de se manifestar por si mesma. A principal causa de nosso sofrimento não é a outra pessoa. Temos amigos que não se enraivecem tão facilmente. A semente de raiva também existe neles, mas, aparentemente, não é tão forte como a nossa.
Ver que a outra pessoa também está sofrendo e, devido a isto comportou-se com pouco tacto, regando as sementes de raiva existentes em nós. Reconhecemos não ter sido ela a causa principal de nosso sofrimento. Pode ter sido a causa secundária, ou talvez seja erroneamente considerada por nós como a causa secundária – talvez ela não tenha tido a mínima intenção de nos ferir.
Algumas pessoas, quando se zangam, acreditam ingenuamente que, se disserem algo grosseiro a outra pessoa e a fizerem sofrer, sentirão algum alívio. Esta não é uma atitude sábia, mas muita gente a adopta. Então você tem que ver se a outra pessoa não está apenas buscando algum alívio para o seu próprio sofrimento.
Reconhecer que, enquanto a outra pessoa continua a sofrer, não podemos ser verdadeiramente felizes. Quando alguém numa comunidade é infeliz, toda a comunidade é infeliz. Para pararmos de sofrer, temos que ajudar a outra pessoa a parar de sofrer. Todos temos que descobrir maneiras habilidosas de ajudar essa pessoa. Somente quando ela supera seu sofrimento, a felicidade na comunidade será autêntica.
O oitavo artigo nos diz que, se durante o nosso exame de consciência nos dermos conta de nossa falta de tacto e de compreensão, devemos nos desculpar imediatamente. Não devemos permitir que a outra pessoa se sinta culpada por mais tempo. Não há necessidade de esperar até a sexta-feira à noite. Se descobrirmos que ficamos zangados por termos a energia habitual de reagir muito depressa, ou devido a um mal-entendido, temos que procurar a outra pessoa e dizer: “Sinto muito, eu não entendi bem. Fiquei zangado muito depressa e sem qualquer motivo. Por favor, me desculpe”. A pessoa se sentirá aliviada. É melhor por um ponto final no ciclo de sofrimento o mais breve possível.

O nono artigo prescreve que se, ao chegar sexta-feira, não estivermos suficientemente calmos para discutir o assunto, devemos adiar o encontro por mais alguns dias ou mais uma semana. Se não nos sentimos calmos, é porque não chegou o momento de tocar no assunto. Precisamos nos exercitar por mais alguns dias.

Na segunda parte do Tratado de Paz, encontramos cinco artigos concernentes à pessoa que motivou a raiva da outra pessoa. De acordo com o primeiro artigo, quando vemos que a outra pessoa está zangada, devemos respeitar seus sentimentos. Não devemos dizer: Eu não fiz nada e você está zangado. Um sentimento obedece a um ciclo de vida – tem o momento de nascer, algum tempo para viver e depois irá morrendo lentamente. Mesmo que vejamos que a raiva não tem nenhum fundamento, que a pessoa está completamente errada, não a pressionamos para que pare com a raiva imediatamente. Ou a ajudamos, ou a deixamos sozinha para que a sua raiva possa ir morrendo naturalmente.

De acordo com o segundo artigo, após ela ter nos dito que está sofrendo, não devemos forçar uma discussão imediata. Se o fizermos, tudo pode ir por água abaixo. Nós nos atemos ao tratado e aceitamos o encontro na sexta-feira à noite. Nesse ínterim, teremos a oportunidade de fazer um exame profunda da situação. O que foi que eu disse? O que foi que eu fiz para deixá-la zangada?. Enquanto estiver sentado, caminhando, e respirando, procure fazer esse exame de consciência. Essa é a verdadeira meditação.

De acordo com o terceiro artigo, após termos recebido um bilhete de paz, devemos responder imediatamente, dizendo que estaremos lá na sexta-feira à noite. Isso é importante, porque se a pessoa souber que recebemos a mensagem, irá se sentir mais aliviada.

O quarto artigo prescreve que pratiquemos a respiração, refugiando-nos na ilha que existe dentro de nós, a fim de ver três coisas:

Que possuímos as sementes – a energia do hábito – da maldade e da ira. Que já fizemos a outra pessoa infeliz antes. Que o reconhecemos mesmo se agora não nos sentimos culpados por seu sofrimento. Que não devemos ter tanta certeza de não sermos culpados desta vez.
Que podemos estar sofrendo, e achamos que dizendo algo grosseiro à outra pessoa, ficaremos aliviados. Esta é a forma errada de alívio, e temos que reconhecer que procurar esse tipo de alívio é burrice. Que não devemos esperar sofrer menos pelo fato de fazer a outra pessoa sofrer.
Que, fazendo um exame de consciência, veremos que o sofrimento da outra pessoa é o nosso sofrimento. Que se fizermos algo para ajudá-la a parar de sofrer, nós também seremos beneficiados.
O quinto artigo prescreve que se pudermos nos desculpar logo, não devemos esperar. Podemos pegar o telefone e nos comunicar imediatamente, sem tentar justificar ou explicar nada do que dissemos ou fizemos. Uma desculpa directa pode ter um efeito poderoso. Dizemos apenas: Sinto muito. Não tive tacto nem compreensão. Talvez não seja preciso esperar até sexta-feira.

O Tratado de Paz é uma prática de consciencialização. Por favor, examine-o em profundidade e se prepare diligentemente para o momento de assiná-lo. A melhor forma da fazê-lo é na sala de meditação, com o testemunho e o apoio do Sangha. Ao final de um Dia de Consciencialização, perante a comunidade, você se compromete a obedecer os artigos do tratado e a seguir suas regras de todo o coração. Então assina. A menos que você esteja convicto de que vai respeitá-lo, é melhor não assiná-lo. Se você assinar e seguir as regras do Tratado de Paz, você e seu parceiro se beneficiarão, e também todos nós nos beneficiaremos com sua habilidade de lidar com a raiva.

Espero que vocês apoiem a prática do Tratado de Paz, escrevendo artigos e promovendo retiros e palestras sobre a natureza do tratado e sobre como concretizar sua prática. Dessa forma, mesmo as pessoas que não têm nenhuma experiência em meditação podem aprender a beneficiar-se com ela. Acredito que um Tratado de Paz desse tipo pode vir a tornar-se no futuro uma parte importante de nossa prática. Vocês podem querer adicionar-lhe mais artigos, a fim de torná-lo mais adequado às suas condições. Que tenham harmonia e felicidade.

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às 19:00

A água é de todos